quinta-feira, 10 de março de 2016

ENTREVISTAS: Economistas do mercado financeiro e da academia comentam o ajuste fiscal e a crise no Brasil

Em 2015, o país foi atingido em cheio por uma crise econômica que muitos especialistas disseram já ter sido esperada. A inflação ultrapassou os dois dígitos pela primeira vez desde 2002, chegando a 10,67%, com forte alta no preço da energia e da gasolina. O dólar se valorizou 48% frente ao real no ano passado, elevando os preços dos produtos importados. Para piorar, o país iniciou 2016 perdendo o selo de “bom pagador” de três agências internacionais de risco.

Pelas ruas, o otimismo de anos anteriores se transformou em falta de confiança. O desemprego no Brasil está prestes a alcançar 10% neste ano e a queda na atividade industrial mostra que as coisas podem piorar antes de melhorarem. Junta-se a isso um cenário político conturbado, com um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff e outro de cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara. E não termina: a Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, continua prendendo políticos, pessoas do alto escalão de partidos ligados à base governistas e grandes empresários.

Com o intuito de frear a recessão que assola o país, o Governo Federal pôs em curso um ajuste fiscal das contas públicas. O mecanismo pretende mostrar que o Brasil está “arrumando a casa”, cortando despesas e aumentando tributos. Só que boa parte do ajuste ainda não foi feita, mas os reflexos do “aperto no cinto” já são sentidos na população. Como isso afeta as universidades, em especial a UFRJ? E a pergunta que pouca gente se faz, mas que merece ser levada em conta: esse ajuste é realmente necessário? Para responder isso, foram ouvidos economistas do mercado e da academia, bem como os estudantes da UFRJ.

Álvaro Bandeira, economista-chefe do Home Broker Modal Mais e ex-aluno da UFRJ

Álvaro Bandeira: "Você tem que reduzir todos os gastos. Passagens aéreas, folha de pagamento nos governos. O cafezinho ser cortado, redução de pessoal, apagar a luz do ministério." (Foto: GloboNews/Divulgação) 


Boletim ECOnômico: O que é, em sua opinião, o ajuste fiscal que está em curso pelo Governo Federal?

Álvaro: O governo precisa primeiro domar o crescimento da sua dívida. E pra isso, ele precisa fazer superávit fiscal. Ou seja, gastar menos do que arrecada e pagar não só os juros da divida, mas também o vencimento de algumas dívidas. Você precisa equilibrar as finanças. Ou seja, não pode gastar mais do que está arrecadando. O governo arrecada com tributos e gasta com investimento, com custeio, com salário de funcionários públicos. Então precisa equilibrar suas finanças. Como no orçamento doméstico: você não pode constantemente gastar mais do que ganha com salário. Num primeiro momento você compensa isso com a emissão de títulos, e isso aumenta a dívida brasileira. Num segundo momento, as pessoas passam a desconfiar que você está muito endividado e passam a não emprestar mais dinheiro.

Boletim ECOnômico: O senhor é a favor desse reequilíbrio das finanças que o governo está fazendo?

Álvaro: Não desse que o governo está fazendo. Porque no meu modo de ver é muito tímido.

Boletim ECOnômico: O que o senhor faria diferente?

Álvaro: Precisa fazer um ajuste mais forte do que esse de meio por cento. Eu diria que você precisaria trabalhar com pelo menos 1.5% para estancar o aumento do endividamento. O caminho é esse, mas a medida é muito tímida. Os EUA fizeram recentemente um ajuste fiscal muito forte, cortando gasto de custeio e não no investimento. Porque quando você corta no investimento, você esta jogando pra frente um problema porque o país não estará preparado para crescer mais forte. Tem que cortar despesas de governo.

Boletim ECOnômico: Quais são esses cortes no custeio e no investimento que o governo faz hoje?

Álvaro: Reduzir a máquina pública, por exemplo. Fica complicado fazer isso com esse desemprego que tem hoje. Mas você tem que reduzir todos os gastos. Passagens aéreas, folha de pagamento nos governos. O cafezinho ser cortado, redução de pessoal, apagar a luz do ministério. Deixar de colocar dinheiro em empresa pública deficitária. Mas não cortar em investimento.

Boletim ECOnômico: As projeções para este e o próximo ano são negativas. O senhor concorda?

Álvaro: Concordo e acho que o FMI foi tímido. Normalmente esses organismos multilaterais, quando fazem suas projeções elas já são defasadas. A cada trimestre as projeções do FMI são revisadas. E provavelmente ainda vão piorar. Deve cai muito provavelmente mais do que 3% em 2016. E em 2017, se quiser começar estagnado tem que começar a ajustar a economia agora. Mas o segundo governo da Dilma está comprometido em 2015, 2016 e 2017.

Boletim ECOnômico: E os impactos para a população?

Álvaro: Você não pode tratar um paciente com problema grave de saúde com um analgésico comum. Todo esse ajuste leva a um comprometimento da sociedade. Mas se você faz o ajuste, a inflação para as pessoas de renda baixa é o pior dos males. A inflação está muito alta. As pessoas sofrem, mas o sofrimento deveria ser entregue como positivo mais pra frente. As pessoas estão sendo oneradas com tributos hoje, mas não veem isso se revertendo positivamente mais pra frente. O Brasil só sabe aumentar a carga tributária e a despesa de custeio. Não há beneficio para as pessoas.

Boletim ECOnômico: E os impactos para as universidades, no caso da UFRJ?

Álvaro: A gente vê que o setor educacional é muito carente. Falta verba, professores, estrutura, tecnologia e conforto. Esse setor precisa ter destinação maior de recursos, mas também ter uma distribuição bem fiscalizada. Vira e mexe falam sobre as classes altas pagar a universidade. Eu acho que já se pagam muitos impostos.

Margarida Gutierrez, professora do Instituto de Economia da UFRJ 

Margarida Gutierrez: "Temos que reverter os déficits primários. O ajuste tem que ser feito, não tem jeito." (Foto: Divulgação)


Boletim ECOnômico: Como você vê a forma com que o governo conduz o ajuste?

Margarida: Atualmente, existe apenas uma proposta de ajuste e o que foi feito de fato não podemos chamar de ajuste fiscal. Foram feitas algumas correções no seguro desemprego, na pensão por morte, impostos aumentaram – porque alguns dependiam de aprovação no Congresso e outros não -, houve uma desoneração da folha de pagamento. O Guido Mantega tinha proposto que as empresas não pagassem contribuição previdenciária de 20% sobre a folha de pagamento e em vez disso pagassem um imposto de 1% a 2% sobre o faturamento. Já o Levi, enquanto era o Ministro da Fazenda, tinha proposto que passasse a alíquota de 1% a 2% sobre o faturamento para 2% a 4% dependendo do setor. O que está em curso são medidas que o Congresso tem que aprovar. Basicamente a CPMF que eu acho que hoje não vai aprovar. O Congresso “está brigando” com o Executivo. Existe uma questão política aí. O Congresso está dizendo que o Governo tem que cortar gastos e não aumentar impostos.

Boletim ECOnômico: E você concorda com o ajuste?

Margarida: O ajuste Fiscal é imprescindível porque a dívida pública brasileira em relação ao PIB é a mais alta entre os países emergentes, tirando a Hungria e a Ucrânia. E está em uma trajetória explosiva. Temos que reverter os déficits primários. O ajuste tem que ser feito, não tem jeito.

Boletim ECOnômico: Você está de acordo com as previsões negativas sobre a queda da economia?

Margarida: Concordo, são muito negativas. Nunca vi nada tão ruim. São dois anos consecutivos de queda do PIB em torno de 3,5% a 4%. Só tinha visto isso na Grande Recessão de 1929. O nosso desempenho este ano só não deve ser pior que o da Venezuela, que vive um verdadeiro caos, onde a polícia fica dentro dos supermercados para vigiar as pessoas que não tem dinheiro para comprar.

Boletim ECOnômico: O que se devia esperar do ajuste?

Margarida: Espera-se que este ajuste fiscal no curto prazo contraia gastos do Governo em permuta trajetória para que então os agentes econômicos recuperem a confiança na economia brasileira e voltem a investir e consumir.

Boletim ECOnômico: Quais os impactos para o ensino superior público?

Margarida: O Governo já partiu pra um corte bem pequeno de gastos, só economizando naquilo que ele pode cortar que representa 10% da despesa. Isso tem um impacto, como já está tendo, em todas as instituições. Resulta em menos verbas, menos bolsas de estudos, menos recursos para as universidades.

“Não há nada igual desde 1930”, diz ex-economista-chefe do BNDES sobre a crise econômica brasileira

Com larga experiência no Banco Nacional de Desenvolvimento Social, o economista Ernani Teixeira aceitou, sem questionar, o pedido de entrevista da equipe do Boletim ECOnômico. Em sua espaçosa casa, no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio, ele recebeu dois alunos da UFRJ para comentar a crise brasileira. Dono de um jeito singular de falar, alterando o tom de voz entre surpreso e incisivo, o professor voluntário do Instituto de Economia mescla seu discurso com críticas contra o Governo Federal, direcionadas ao mercado financeiro e até à imprensa. Ernani assume um tom pessimista ao avaliar o atual cenário, mas elenca medidas que poderiam evitar o aprofundamento da crise.

Ernani Teixeira: "O que tem que fazer é não fazer nada grandioso, não colocar medo nas pessoas" (Foto: Divulgação)


Boletim ECOnômico: Como você avalia os esforços do Governo Federal na aplicação do ajuste fiscal?

Ernani: Os credores do governo estão dizendo: “Nós não estamos afim de te emprestar mais!”. Então, ou você aumenta sua receita (criando impostos) ou corta gastos - demite, no caso de uma empresa. O governo representa 35% da economia e, se parar de gastar, o impacto é monumental. Desencadeia o que chamamos na economia de efeito multiplicador. Isso tem implicações sistêmicas: as pessoas param de gastar. E então o que pode acontecer? A receita do governo pode cair. Se você estiver desempregado, vai parar de gastar e de pagar impostos. Foi o que aconteceu no Brasil no ano passado, quando a receita do governo caiu barbaramente, muito além de qualquer expectativa. Agora, o governo resolveu cortar gastos, subir as tarifas, com 50% de aumento na conta de luz e isso impactou todo mundo. A inflação subiu, o Banco Central elevou as taxas de juros. Sem contar com a Lava-jato. A economia não suportou e despencou. Depois que você desencadeia um processo multiplicador negativo em que as pessoas estão parando de gastar o que acontece? Como parar? O que tem que fazer é não fazer nada grandioso, não colocar medo nas pessoas, porque com medo, elas passam a gastar menos. Deve-se fazer coisas mais calmas e tentar ver se as pessoas começam a gastar um pouquinho mais. E a economia para de cair? Para. O problema é não saber onde e nem quando. Nós estamos assistindo a um fenômeno no Brasil que não tem precedência histórica, nunca aconteceu nada parecido. E o pavor que a imprensa impõe nos brasileiros ganha enormes proporções.

Boletim ECOnômico: E o senhor concorda com todas as medidas que estão sendo anunciadas desde o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy?

Ernani: O Levy tinha uma visão muito do que ele passou em 2002, 2003. Quando o Lula assumiu, o dólar custava R$ 4, o que era R$ 6 ou R$ 7. Eles fizeram um ajuste absurdamente pesado e a economia foi ao chão, mas a situação internacional ajudou muito. A Petrobrás não estava quebrada, os chineses vieram comprar, os preços das matérias-primas subiram, o minério de ferro não valia nada e em pouco tempo “virou ouro”. O petróleo foi a R$ 150. Entrou dinheiro e a economia foi retomando aos poucos. Como o Brasil estava bem ajustado, os credores queriam emprestar. O dinheiro sobrou e o Lula foi pagando a dívida externa. Acharam que o ajuste era mecânico, que é simplesmente fazer de novo. Mas na economia o que vale em uma hora, não vale na outra. A Dilma fez muita coisa errada. Ela fez um horror dentro da Petrobras e do setor elétrico. Para quê? Para nada. Eu sou a favor de um governo ativo, mas você vai dar um subsidio para quê? Boa parte do que ela fez não precisava. Assumiu o governo, abaixou os impostos para empresas, mas sem impacto nenhum. Quando fizeram as contas para o ajuste, eles não achavam que a economia iria para o buraco. Os caras fizeram as contas e acharam que a queda era “X”. Não levaram em conta a Lava-jato, que “comeu” 1 ponto percentual do PIB. Eles perderam R$ 100 bi. É a pior recessão na história brasileira, não tem nada parecido com isso. Crise antigamente vinha de fora, como a do petróleo ou da dívida externa. Essa crise que estamos vivendo é interna. A economia está numa situação precária desde 2008, mas o governo tinha segurado razoavelmente bem e agora deu um tiro no pé. E quanto mais faz, mais a economia vai para o buraco, maior é o déficit fiscal. E a imprensa e os partidos de oposição dizem: “agora tem que fazer mais um ajuste fiscal”. O jeito é fazer um “cosmético” para as empresas segurarem “um pouco a onda” e parar num nível melhor do que ela pararia.

Boletim ECOnômico: O senhor diz, por exemplo, o anuncio de mais um PAC ou algo nesse sentido?
 
Ernani: Anúncio de PAC, de crédito ou alguma coisa do tipo. Qualquer coisa para dar um pouco mais de entusiasmo, porque a economia continua afundando. Alguns setores seguraram um pouco, como o consumo das famílias. Mas tem muita coisa quebrada, as empreiteiras todas estão quebradas, várias empresas estão quebradas. O problema é: por quanto tempo? O ajuste fiscal é uma tragédia. Muita gente está desempregada. E vai continuar. Na verdade é uma depressão que estamos em 2015 e 2016 onde não há nenhuma experiência histórica que se assemelhe desde 1930.

Boletim ECOnômico: Então você está dizendo que não existe um antídoto certo que vá resolver todos os problemas. Nós estamos vendo alguns prognósticos do FMI e Banco Mundial sobre mais recessão, que apontam para mais problemas até 2017. O senhor concorda com essas estimativas ou elas são pesadas demais?

Ernani: Dois anos de recessão só houve no Brasil em 1930 por causa da crise do café e o crash internacional. A economia caiu ao longo de 2015. Então se você estabilizar em dezembro – o que não deve acontecer –, ela deve cair entre 1,5% e 2%. O que eu quero dizer com isso? O fundo monetário está falando em 3,5% de novo. Há anos que ninguém acerta nada. O mínimo vai ser -1,5. Tudo vai depender se o Nelson Barbosa e a presidente tiverem um comportamento razoável e conseguirem estabilizar um pouco o gasto, não fazendo nada de absurdo. “Ah, vou tirar a possibilidade dos funcionários públicos poderem se aposentar aos 60 anos...”. Ótimo, mas qual a importância disso no curto prazo? Nenhuma. É apenas cosmético. Se o governo for bem sucedido, acho que a economia cai entre 2% e 2,5%. Se tiver alguma complicação pelo caminho – alguma empresa importante quebrar, a presidente cair – pode ser que o buraco seja pior. Em última instancia, o que estou falando é: a previsão do fundo é ruim, eu diria que talvez ela esteja pessimista. É como se estivéssemos voando em um avião a 800 km/h e o piloto resolver ir ao banheiro em meio à tempestade.

Boletim ECOnômico: Dava para manter a política anticíclica do ex-ministro Guido Mantega?

Ernani: A Dilma fez um arrocho fiscal muito pesado no início do governo dela, pegando a economia com crescimento de 7%. Em um ano, ela se apavorou e pegou crédito com o BNDES a 2,5% ao ano, com taxa de juros fixa. Estou dando exemplo do que eu acho que está errado e que ajuda a pavimentar a fragilidade fiscal brasileira. Devia ter feito o ajuste das tarifas? Sim. Mas em vez de dar um choque de 50%, faz progressivamente. De tal maneira que o Banco Central não precisasse subir tanto as taxas. Você podia fazer um ajuste de dois anos, que eventualmente teria um custo fiscal maior, mas que teria resultado em uma situação menos ruim do que a de hoje. A Lava-Jato teria vindo, Marcelo Odebrecht estaria preso, gerando esse pânico. Mas o governo não estaria movimentando a economia para baixo dessa forma e seguraria mais as expectativas. Há um problema sério de grau e de diagnóstico. Eu não teria feito da forma que foi feito. Eu gosto mais do estilo desse cara (Nelson Babosa), que vai mais devagar, calminho. Mas agora, a besteira está feita. Não dá pra refazer o passado. Mas dá para administrar isso de forma diferente. Ela foi eleita e reeleita, o que significava que havia prestígio, capital político. Mas ela queimou o capital político todo de uma vez, o que gera uma crise política nada trivial. Isso torna os mecanismos de resolver as coisas piores. Eu teria proposto uma coisa muito mais leve. Eu não teria feito uma concessão tão grande aos conservadores, mas alguma concessão precisava ser feita. O problema agora é o pânico. Não um pânico financeiro, mas das pessoas. Eu tenho medo do que pode acontecer.  Em 2008, tinha-se um presidente aberto no quesito de políticas econômicas, com enorme prestígio e um Estado financeiramente bem. Quatro anos depois acontece uma desgraça monumental.

Boletim ECOnômico: De que forma o ajuste fiscal impacta nas universidades federais, incluindo a UFRJ?

Ernani: Significa falta de grana. As universidades não vão ter o orçamento que elas estão acostumadas a ter. As universidades federais cresceram muito nos últimos anos. Significa que não haverá reforma do bandejão, não haverá reforma no alojamento. Vai haver uma deterioração das condições físicas. Semestre passado quando fui dar aula, a faculdade estava fechada. Não havia limpeza, não tinham terceirizados. Isso vai se tornar mais frequente.

Estudantes da UFRJ sofrem com o ajuste fiscal e a queda da economia

Cacau Farias, estudante do curso de Jornalismo da UFRJ e moradora do Alojamento Universitário, no Fundão.

Boletim ECOnômico: Como está a situação do alojamento universitário atualmente? 

Cacau: Muito ruim. A antiga ala feminina está em reforma, fazendo com que todas as meninas fossem realocadas para a ala masculina, que acabou se tornando mista. Dentro do alojamento existem 13 barracas de camping, alocadas no hall, sendo que algumas estão há mais de seis meses. E tudo sem banheiro! É assustador se pensarmos que o alojamento consiste em alas construídas ainda no período da ditadura!

Boletim ECOnômico: Qual o papel do ajuste fiscal nessa situação? 

Cacau: O número de alunos não para de subir e, com o ajuste fiscal, mais verbas foram cortadas. A morosidade das obras faz com que as verbas nunca sejam suficientes. As reformas aumentam, duplicam, quadruplicam de preço e nada dos lugares ficarem prontos. Como o dinheiro é destinado para um determinado prazo, o tempo prescreve e o dinheiro tem que se novamente solicitado. A situação está ruim, mas sempre foi. Temos que cobrar do Leher (Reitor da UFRJ) uma postura diante dessa situação, independente do ajuste. Faz quase um ano que ele (Leher) foi eleito e nada foi feito. 

Amanda Laryssa, estudante de Biomedicina na UFRJ e moradora de uma república, na Vila Residencial do Fundão

Boletim ECOnômico: Como o não reajuste da bolsa modificou a vida dos estudantes moradores da república? 

Amanda: Não reajustar a bolsa faz com que seja complicado continuar na UFRJ. Na Vila Residencial ou até mesmo na Ilha do Governador, dificilmente encontramos casas para morar por R$ 350. Geralmente é sempre mais do que R$ 400. E, quando você acha por R$ 350, é uma casa para dividir com várias pessoas. A dificuldade financeira acaba sendo a grande razão das repúblicas da Vila estarem lotadas, com 40, 60 pessoas dentro de uma casa. Como as pessoas não têm como pagar algo melhor, ficam morando nessas condições.

Boletim ECOnômico: A situação sempre foi assim? 

Amanda: Antigamente, quando eu entrei, dava para pagar o aluguel por R$ 350 e viver muito bem o resto do mês com os R$ 200 que sobravam, pagando o bandejão e etc. Mas, ultimamente, as coisas só aumentam, está muito difícil. Você vai ao supermercado e gasta R$ 50 em um minuto comprando coisas necessárias para passar uma semana. A bolsa não fica compatível com a situação que a gente vive no momento, no Brasil. O não reajuste dela prejudica muito!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

UFRJ tem corte severo de orçamento em 2015

Sem pagar os funcionários e sem dinheiro para manutenção, caos se instaura na universidade e clima de greve aumenta


Imagine planejar um ano inteiro, fechar contratos, contratar novos funcionários, fazer tudo correto. Porém, chega um momento que você descobre que só vai receber um terço do previsto. Com certeza isso causaria alguns danos aos planos de seu orçamento. E quem dera essa fosse uma situação fictícia, pois o que parece um pesadelo é a realidade da Escola de Comunicação da UFRJ. Sem verba, e sem perspectiva de recebê-la tão cedo, a Escola perdeu suas mínimas condições de funcionamento, o que levou os alunos e servidores a entrarem em greve.

Segundo a previsão orçamentária, a ECO receberia R$ 360 mil para 2015, o mesmo que havia recebido no ano anterior, sem reajustes com a inflação. Porém, até o final do mês de junho, a faculdade recebeu apenas a integralidade da primeira cota (120 mil reais), que deveria ter sido entregue até o final de março. E muito se engana quem pensa que essa situação de crise está restrita ao palácio. “O mais preocupante não é o que acontece na escola, porque o daqui é reflexo do geral”, afirma Amaury Fernandes, diretor da ECO sobre a situação econômica enfrentada. A crise financeira vem mostrando sua face desde maio, quando houve paralisação em diversos campi para tentar resolver algo. De fato, nenhuma remessa a mais chegou e algumas faculdades permanecem fechadas, como a Faculdade de Letras, no campus do Fundão.

Essa situação pode parecer inusitada para alguns, porém se trata de um cenário que vem se desenhando há certo tempo. Desde 2011, o número de alunos na universidade aumentou 55% e o custo de manutenção também, porém os orçamentos mantêm uma taxa de crescimento frequente de 5% há quatro anos, abaixo da inflação, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
De acordo com o ministro da educação, Aloizio Mercadante, a UFRJ já recebeu R$ 92 milhões, que era a primeira parcela prevista no orçamento. Contudo, vale ressaltar que o orçamento de 2015 não foi votado até então, logo, essa remessa é, na verdade, uma repetição do orçamento de 2014. Com os ajustes, a Universidade deveria receber R$ 115 milhões. Quando o ministro afirma que o dinheiro já foi entregue, ele esquece que a instituição recebeu um corte de quase R$ 30 milhões.

O reitor eleito esse ano, Roberto Leher, alertou a comunidade acadêmica sobre a situação financeira da UFRJ, informando que o dinheiro acabará em agosto. Porém, para o diretor Amaury Fernandes o reitor está sendo otimista, pois “o dinheiro já acabou.” E isso fica claro pela situação da ECO. Sem dinheiro para consertos, aquisição de novo material e outros serviços de manutenção, uma parte dos alunos se mobilizou e entrou em greve, reivindicando melhores condições de estudo e pesquisa. Ao mesmo tempo, servidores e técnicos administrativos anunciaram sua própria greve por melhores condições de trabalho.


Prejudicados ocultos

Os alunos estão em greve, os servidores estão em greve, também os professores aderiram à greve recentemente. Tudo isso se escuta na mídia. E quanto aos terceirizados? Pouco se fala, mas com salários atrasados há mais de três meses, porteiros, seguranças e faxineiros começaram sua greve visando apenas um direito: seu salário. E o reitor Roberto Leher admitiu, em entrevista ao O Dia, que a UFRJ terá problemas para honrar seus contratos.

“Nossos colegas estão passando fome, sendo despejados e humilhados”, relata Terezinha da Costa, líder do movimento dos terceirizados, sobre a situação enfrentada por eles. Sem salário e sem mesmo vale transporte, muitos funcionários da empresa Qualitécnica – uma das terceirizadas que presta serviço para a UFRJ – continuam indo trabalhar por medo, explica Terezinha: “Os supervisores ameaçam os funcionários que aderem à greve. Falam que vão descontar os dias de falta no salário.”

Em 2011, a universidade tinha R$ 230 milhões para custeio e 870 terceirizados. Hoje, existem cerca de 5 mil funcionários trabalhando, ou seja, cinco vezes mais, porém a verba para custeio deles é pouco maior do que há quatro anos atrás – está em torno de apenas R$ 301 milhões. Sem segurança e sem limpeza, pilhas de lixo se formam nos corredores das faculdades e alguns crimes começam a acontecer, como o furto de um laptop de um professor da ECO e de um projetor do Palácio.

Segundo o Portal da Transparência, até o final de junho, a Escola de Comunicação recebeu apenas 16 mil reais para custeio dos terceirizados, um valor muito inferior ao necessário para pagar a empresa HigiTime, que presta serviços de limpeza para a faculdade, sem contar com a Venturelli e a Angels, empresas que também prestam serviços terceirizados de segurança e portaria para a ECO. Para evitar o caos, o diretor toma atitudes individuais: “Alguns diretores de unidades optam por fazer caixinha, pagar. Aqui, nós pagamos em alguns momentos alimentação e transporte. Eu tirei do meu bolso e paguei para que houvesse o mínimo de limpeza na escola, para poder ter a eleição para reitor.” Diante dessa situação, o diretor da ECO lamenta: “Por mais difícil que sejam as relações com os servidores, era muito melhor quando tínhamos servidores da UFRJ para fazer esses serviços.”


Ocupação da Reitoria da UFRJ por alunos em maio desse ano em movimento por melhores condições de estudo


Situação Evitável

Se o país enfrenta um momento de crise econômica, é natural que a universidade seja um reflexo desse cenário. Porém, a situação poderia estar mais controlada se menos recursos do Ministério da Educação fossem destinados às instituições privadas.

Segundo dados do MEC, o governo repassou cerca de R$13,8 bilhões a essas instituições privadas por meio do Fies (programa de financiamento de graduação privada) no ano passado e tem previsão de repassar R$16 bilhões esse ano. O reitor eleito, Roberto Leher, garantiu em entrevista que se esses investimentos fossem destinados ao setor público seria possível dobrar o número de vagas em instituições federais. “Todo o esforço da expansão universitária dos últimos anos pode ser jogado fora pois não há como manter mais alunos sem investimento. É visível que o governo optou pelo crescimento do setor privado, com Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), ProUni (Programa Universidade para Todos) e Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Curso Técnico e Emprego)”, lamenta o reitor.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quanto custa estudar na ECO?

As dificuldades de se estudar em uma Universidade federal não acabam com a aprovação no vestibular. Após o ingresso, problemas, sobretudo econômicos, são enfrentados pelo estudante. Apesar do aluno da ECO ser, majoritariamente, das classes média e alta, não é fácil se manter estudando na cidade maravilhosa. Os cariocas não saem imunes, mas são os alunos vindos de fora que mais sentem o peso no bolso: custos de moradia e alimentação elevados, aliados à falta de estrutura do alojamento universitário e a insuficiência dos chamados “bandejões”.

Os preços sobem. As bolsas, não


Ser aprovado no processo seletivo da maior universidade federal do país pode induzir o estudante a esperar receber um ensino de qualidade e gratuito. A Universidade do Brasil, de fato, tem o ensino renomado e não cobra contribuições financeiras de seus discentes. No entanto, isso não anula os gastos necessários para manter uma graduação na 11ª cidade mais cara do mundo, segundo pesquisa divulgada em setembro da consultora imobiliária Savills.

A capital fluminense tem o metro quadrado mais caro do país, de R$10.830. O valor das passagens de trem e metrô também estão no topo do ranking nacional: R$3,20 e R$3,50, respectivamente. Já a de ônibus está empatada com São Paulo/SP, Campo Grande/MS, Recife/PE e Brasília/DF, mas deve liderar na modalidade a partir de 2015, quando deverá ter uma alta de 3%, alcançando R$3,10, arredondando os centavos. O reajuste, segundo a Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano, é necessário devido ao aumento de 5% no preço do Diesel.

De acordo com o Sindicato da Habitação (Secovi Rio), a taxa condominial por metro quadrado na cidade subiu 7,7%, de setembro de 2013 a igual mês deste ano. A alta do aluguel residencial na cidade do Rio, segundo apurou o IBGE, variou 9,61% no mesmo período. Já o Índice Geral de Preços - Mercado (IGPM), da Fundação Getúlio Vargas, teve alta de 3,05% no acumulado do ano até novembro. Já em doze meses, o avanço foi de 3,66%. 

Com custos tão altos, manter-se no Rio de Janeiro para estudar com pouca ou nenhuma renda fixa torna-se um trabalho de Hércules. Alunos cariocas, fluminenses de outras regiões do Estado, intercambistas estrangeiros, além do número crescente de graduandos vindos de outras partes do Brasil, enfrentam uma realidade desafiadora, que pode ameaçar sua permanência na UFRJ.

A Universidade, então, adquire um papel assistencial aos alunos vulneráveis a esse cenário. A Superintendência Geral de Políticas Estudantis (Superest) é a divisão responsável por prover bolsas e auxílios aos universitários. De janeiro a outubro, o órgão distribuiu mais de 55 mil bolsas a 5600 alunos, totalizando R$32,5 milhões. O orçamento do Programa Nacional de Assistência Estudantil prevê que até o fim do ano R$37 milhões em bolsas sejam entregues.

As bolsas não são reajustadas desde o início de 2013, segundo Ericksson Rocha e Almendra, titular da Superest. No entanto, a responsabilidade pelo valor da assistência não é definido pela universidade. "O valor das bolsas de Assistência Estudantil, em todo o país, são na prática indexados ao valor da Bolsa de Iniciação Científica do CNPq e do Capes", explica. O aumento também não é imediato. De acordo com o superintendente, questões orçamentárias da universidade atrasam em alguns meses o ajuste aos demais estudantes.



No período de estagnação das bolsas em R$ 400, a inflação subiu. A nível nacional, o índice chegou a 5,91% em 2013, enquanto, na cidade do Rio de Janeiro, teve alta de 6,16%. Até novembrode 2014, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) já alcança 5,58% no país e 6,13% na Região Metropolitana fluminense, levando-se em conta a variação acumulada no ano. A pesquisa considera os custos das famílias com ganhos de 1 a 40 salários mínimos em dez regiões metropolitanas do país e nas cidades de Goiânia, Brasília e Campo Grande.

O grupo de maior impacto no índice relativo a novembro está diretamente ligado ao cotidiano estudantil: alimentos e bebidas, que foi responsável por 37% do IPCA. O quesito teve a maior variação em novembro, de 0,77%. Entre os subitens, a alta da refeição no mês foi de 0,59%, enquanto a variação acumulada no ano e nos últimos 12 meses alcançou 8,43% e 9,68%, respectivamente.




Já o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que se refere às famílias com rendimentos de 1 a 5 salários mínimos, indicou que, nos últimos 12 meses, o índice local alcançou 7,44%, acima da média nacional de 6,33%. Ambas as pesquisas divulgadas pelo IBGE mostram o Rio de Janeiro com índices de preços acima dos números do país, conforme mostram os gráficos abaixo:

IPCA




INPC




Universidade não tem estrutura suficiente para assistência estudantil

 

Imagem interna de um dos ambientes do alojamento. Foto enviada pela estudante Ilca Dias.


A UFRJ é a maior universidade federal do Brasil e conhecida por ser um dos pontos de excelência da Educação Superior do país. Com mais de 50 mil estudantes matriculados, é uma das Instituições Federais de Ensino (IFE) com maior parcela de orçamento da União. Em 2014, o investimento feito pelo governo federal girou em torno de 1 bilhão e 900 mil reais (1.955.261.455,55 de reais), sendo destes 37 milhões de reais destinados a implementação de bolsas de assistência estudantil , no ano de 2014.

As bolsas de assistência estudantil (Bolsa Auxílio, Auxílio Manutenção, Bolsa de Acesso e Permanência e respectivos auxílios transporte e Auxílio Moradia Emergencial para o Rio de Janeiro e Macaé) são pagas com recursos orçamentários do Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), programa criado em 2008 com intuito de diminuir as desigualdades presente na Universidade brasileira, e que em 2010 tinha orçamento  superior a 300 milhões  para atender demandas de 112 universidades públicas do território nacional, sendo a UFRJ a instituição que recebe a maior fatia dessa divisão.

Mesmo sendo a universidade com maior investimento nas políticas assistencialistas, a realidade de muitos desses estudantes é alarmante. No dia 28 de outubro desse ano, o superintendente das Políticas estudantis da UFRJ enviou um e-mail endereçado a todos os acadêmicos  afirmando  que o perfil dos estudantes da universidade estaria menos elitizado. O e-mail dizia:

"O perfil do nosso alunado mudou, vem mudando muito nos últimos poucos anos. Isso por causa do ingresso via ENEM/SiSU e da política de cotas. Temos mais e mais alunos provenientes de outros Estados e Municípios, mais e mais alunos carentes, mais e mais alunos portadores de deficiência, etc."

Foto enviada pela estudante Ilca Dias.

Breno Botelho, estudante de Ciências Sociais no IFCS, é um desses alunos. Vindo de Teresina, no Piauí, conta que veio para a UFRJ com intuito de se tornar pesquisador “Quem não quer estudar na melhor universidade do seu país?”, indaga.  Ele vive no alojamento da Universidade há quase 2 anos e conta que nesse tempo já teve vontade de desistir do seu sonho muitas vezes. “As condições de vida aqui são muito ruins,até ratos já encontramos na Caixa d'água do Aló.”

Breno foi um dos estudantes que fizeram uma ocupação no prédio da reitoria no mês de setembro em protesto à declaração feita pela reitoria da UFRJ pedindo aos estudantes que não tivessem condições de se manter no Rio de Janeiro, que não prestassem vestibular para a federal da cidade maravilhosa.

“Discutam com suas famílias as condições de sobrevivência no Rio de Janeiro, caso não venham a ser selecionados para receber uma bolsa de assistência estudantil”. Para os bolsistas selecionados a carta recomenda: “devem ter ciência de que a bolsa irá apoiar a sua permanência, mas, certamente, seus familiares terão que arcar com parte dos recursos necessários para sua manutenção nesta cidade cujo custo de vida é dos mais altos do Brasil”. O documento finaliza: “Estudar em outra universidade, mais próxima de casa, pode minimizar custos e significar a diferença entre concretizar um sonho ou vê-lo frustrado por toda a vida”.

À época do acontecimento, a representação estudantil se pronunciou pedindo retratação da  reitoria  “Queremos uma universidade democrática e não uma universidade que diga para os alunos de baixa renda que não os quer aqui”, dizia a nota do Diretório Central dos Estudantes.

A resposta da reitoria veio pelo próprio reitor Carlos Levi,  no Conselho Universitário do dia 14 de agosto:  “Poderíamos rever os termos da carta, mas a ideia foi justamente que os alunos tenham responsabilidade de se candidatar para universidades nas quais tenham condições de se manter”.


 

 Perfil dos estudantes da ECO


Há um perfil socioeconômico predominante entre os alunos da Escola de Comunicação da UFRJ: estudantes das classes média e alta compõem a maior parte do corpo discente. Em uma pesquisa feita com 100 alunos, 75% dos entrevistados alegaram possuir uma renda familiar superior a cinco salários mínimos. Destes, quase metade possui mais de dez salários em casa. Cerca de 1300 alunos estão atualmente matriculados no curso de Comunicação Social.

Outro dado que incrementa esse perfil é o local de moradia de boa parte dos alunos: o bairro com maior número de estudantes residentes é a Tijuca, seguido por Botafogo e Copacabana. Só nesses três bairros, tipicamente das classes média e alta, concentram-se 46% dos alunos pesquisados. Em seguida aparecem os moradores da região metropolitana (Baixada Fluminense, São Gonçalo e Niterói), que contabilizam 12% do total.

É possível buscar uma explicação para o grande número de alunos residentes em Copacabana e Botafogo: a faculdade se localiza praticamente na divisa entre os dois bairros. Tal fator atrairia boa parte dos alunos migrantes de outras partes do Brasil a buscar uma moradia próxima ao Campus da Praia Vermelha, muitas vezes em repúblicas de estudantes.

Entre os estudantes que já estagiam, cerca de 80% recebe mais do que um salário mínimo, e metade destes ganham mais de R$1000,00 por mês. Somente três alunos recebem até R$400,00, dado que provavelmente se refere aos alunos bolsistas de iniciação científica.

Dentre os pais dos alunos, o número de funcionários privados leva ligeira vantagem sobre o de funcionários públicos: 72 e 61, respectivamente. Completam o quadro 17 profissionais autônomos, 3 desempregados e 2 aposentados.

O resultado da pesquisa intriga a muitas pessoas que já percebiam, no dia-a-dia, o perfil socioeconômico do aluno da ECO. A polêmica é: em se tratando de uma faculdade pública, responsável por universalizar o ensino e promover a ascensão social para as camadas mais pobres, será justo abrigar majoritariamente alunos das classes A e B?

Um contraponto desta abordagem é a análise da professora e vice-diretora da Escola, Cristina do Rêgo Monteiro, que atesta para o outro lado da questão: as mudanças que, há anos, vem ocorrendo no perfil socioeconômico do aluno:

“Se são 75% de alunos de classes média e alta, significa que 25% não pertencem a essas camadas. Antigamente esses 25% eram ainda menores. Penso que a entrada de políticas de alcance integrador já se faz sentir. A questão é que nenhuma política pontual modifica um quadro crônico social como o brasileiro”.

Se as políticas aplicadas podem apontar para uma maior inclusão social na ECO e UFRJ como um todo, existiria algum limite de implantação de tais medidas, dentro de um contexto político e econômico maior? A professora se questiona:

“Temos a possibilidade de oferecer um curso gratuito, temos as cotas, temos preocupação com a extensão. Também temos novas propostas de melhores instalações dos alunos vindos de fora do Rio, que hoje em dia são totalmente precárias. Todas essas políticas tendem a integrar, mas se encontram dentro de um sistema. E até que ponto este sistema agrega, realmente? Toda valoração desse sistema, do ponto de vista do que é importante para a sociedade, aponta em qual direção?”

Fica a pergunta para os leitores.

Intercambistas gastam mais com moradia e alimentação


Moradia e alimentação são os principais gastos dos alunos estrangeiros presentes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A maioria dos alunos inquiridos afirma ter uma despesa entre R$ 901 e R$ 1900 com o alojamento. Estes números apenas vêm confirmar os preços elevados no aluguel de imóveis no Rio de Janeiro.

Segundo a pesquisa sobre o perfil económico respondida por 31 alunos de intercâmbio, os mesmos despendem em média R$ 1970 por mês, o equivalente a 2,5 salários mínimos, ou se quiser, USD$ 650.

Relativamente ao desembolso com a alimentação, mais de 60% dos alunos pesquisados responderam que gastam entre R$ 200 e R$ 500 ao mês, sendo que entre estes o limite despendido pela maioria é de R$ 300. Desta forma, é possível analisar através dos números da amostra que, mesmo que estes alunos tenham feito suas refeições no restaurante universitário, apresentam, ainda assim, valores reduzidos em relação aos preços dos demais restaurantes da cidade.

No entanto, nem só de casa e refeições se faz um gringo da UFRJ. No que toca a choupes, caipirinhas, noite e diversão, o maior número de alunos desembolsa quantias entre os R$ 250 e R$ 750. É certo que em intervalos inferiores, os compreendidos entre R$ 0 e R$ 250, têm um valor expressivo, porém é no intervalo primeiro que se centra a maioria.

O mais interessante surge quando cruzamos os dados médios da alimentação e diversão e entretenimento. Em média um aluno de intercâmbio despende aproximadamente R$ 374 com refeições e R$ 343 com lazer. Em números práticos, são 75 choupes contra 69 se cada um custasse R$ 5.

Como é fácil de constatar, os números de choupes estão muito próximos, sendo assim um indicador de que a alimentação não é de todo a maior preocupação dos alunos de intercâmbio.

As despesas com viagens são as que apresentam os valores mais baixos. Ao contrário do que se passa com uma boa parte dos alunos que fazem intercâmbio na Europa, os da UFRJ não têm muito costume de viajar. Cerca de 65% afirma gastar entre R$ 0 e R$ 300 por mês. Mais uma vez, o motivo está na praticabilidade de preços elevados.

O custo de vida da cidade maravilhosa não assusta, contudo, o austríaco Michael José Morf: “economicamente eu penso que a vida no Rio é tão cara quanto a vida em Salzburgo (Áustria). No entanto, a maior diferença é que em Salzburgo tinha a possibilidade de trabalhar ao mesmo tempo que estudava.” Michael sublinha ainda que a experiência está a ser bastante rentável tanto pelas experiências interculturais quanto pelo peso que o intercâmbio vai ter no seu currículo.

Mas quem são estes alunos?


Portugal e França são os países com maior representação dentre os intercambistas presentes na UFRJ. Os motivos pelos quais os alunos das universidades portuguesas escolhem o Brasil para estudar são fáceis de observar: familiaridade com a língua e até com a cultura. Contudo, porque é que os franceses escolhem a UFRJ?

A França é o país que detém o maior número de convénios. São cerca de 49 instituições francesas as que têm parcerias com a universidade do Rio de Janeiro. Se estabelecermos um termo de comparação, a França tem mais convénios com a UFRJ do que universidades de todo o continente americano. Os dados, esses, foram obtidos no site do Setor de Convénios e Relações Internacionais (SCRI) da UFRJ.

É de referir ainda que mais de metade dos alunos são mulheres e a idade que mais figura está entre os 20 e os 24, cerca de 87% dos intercambistas segundo a amostra.

Gastos aumentam quando estudante mora longe


Moradora de Cosmos fala sobre as dificuldades de sair de casa para ficar próxima à faculdade na Zona Sul do Rio de Janeiro


Morar perto da faculdade facilita a e traz praticidade à vida de qualquer aluno e, por isso, muitos estudantes se submetem a moradias superlotadas, desconfortáveis e/ou de alto custo. Natascha Oliveira, 20, é graduanda de Publicidade e Propaganda na Escola de Comunicação da UFRJ, no Campus da Praia Vermelha, na Urca. A jovem morava com os pais em Cosmos, na zona oeste do Rio de Janeiro, mas após um ano e meio na universidade, resolveu se mudar. Ela levava, no mínimo, duas horas no trajeto: fazia integração do trem com ônibus ou trem com metrô.  Quando acontecia algum problema na Supervia, ela tinha que pegar três ônibus: um para o centro, outro para Campo Grande, e, finalmente, o último para casa.

Além da distância que enfrentava, a estudante conta: “O péssimo serviço de transportes públicos nos horários de ir para faculdade e voltar do estágio para a casa me motivaram a tomar essa decisão”.  Portanto, no início deste ano, no seu quarto período na faculdade, Natascha se mudou para uma “república”, no Catete, que dividia com mais 17 pessoas. Ficou lá até setembro porque, segundo ela, estava “rolando uns perrengues” de falta d’água e luz, e o sumiço de alguns objetos pessoais.

Agora ela mora em um hostel em Botafogo, dividindo o quarto com mais três pessoas. Os gastos são maiores, já que pelo grande número de pessoas que dividiam a “república”, o aluguel ficava próximo a R$400,00. Hoje, ela paga em torno de R$600,00 para ter um pouco mais de conforto. “O Catete é um bairro mais popular, o que me permitia gastar bem menos, não só para me manter, mas no aluguel mesmo. Botafogo é bem mais caro, ainda mais perto do Humaitá, que é onde eu vivo atualmente”, diz.

O aluguel é pago pelos pais, mas a bolsa que ganha no estágio, de R$720,00 mais vale refeição e vale transporte, é exclusivamente usada para pagar o supermercado, o almoço (quando não consegue tempo para comer em casa) e o cartão de crédito, já que a universitária prefere comprar certas coisas a longo prazo. Questionada sobre as dificuldades socioeconômicas que encontra no cotidiano, Natascha conta que foi roubada duas semanas atrás. Ela está aguardando os novos cartões chegarem e, pior, todo seu dinheiro está preso no banco. “É complicado passar por essas situações e não ter os pais do lado. Organizar finanças, conviver com pessoas absolutamente diferentes numa casa que não é, efetivamente, a minha, é sair da zona de conforto. É meio difícil, mas tem sido um grande aprendizado”.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Aluno da ECO custa R$ 46 mil ao fim da graduação

Valor é estimado a partir dos recursos destinados à Escola e da remuneração dos professores; greve e dificuldade no acesso a dados impedem apurar mais números e com mais precisão 

 

Turma de Jornalismo Econômico 2014.1

Ao concluir a graduação na Escola de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), um aluno chega a custar R$ 45,9 mil aos cofres públicos. O dado foi obtido a partir da soma dos gastos com o pagamento dos professores da Escola, mais o orçamento repassado à unidade anualmente pela Universidade, destinado às despesas de consumo, manutenção e material permanente (equipamentos). Esse orçamento foi reajustado nos últimos quatro anos em 5%, a cada ano, abaixo da inflação registrada nesse período.

O levantamento abrange os repasses entre os anos de 2011 e 2014. Para contabilizar a remuneração do corpo docente da ECO, a reportagem se baseou no quadro de professores do primeiro período deste ano, bem como o número de 1.084 alunos ativos na escola, nesse mesmo espaço de tempo, para se chegar ao custo per capita.

Em 2011, a universidade destinou à Escola de Comunicação R$ 351.061,00. No ano seguinte, a verba foi de R$ 368.614 e, em 2013, R$ 387.045. Neste ano, a ECO vai receber R$ 406.395, em três parcelas – março, julho e outubro -, segundo a diretora-adjunta de administração da unidade, Sheila Camlot.

A cada ano, a verba repassada à Escola teve reajuste de 5%, abaixo da inflação registrada entre 2011 e 2013, pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e usado pelo governo para o controle das metas de inflação. Em 2011, 2012 e 2013, o índice ficou em 6,5%, 5,84% e 5,91%, respectivamente. Para 2014, de acordo com o último boletim Focus, a inflação esperada é de 6,47%. Esse relatório, divulgado pelo Banco Central, representa as expectativas do mercado financeiro quanto à economia do país.

Para o professor de finanças Gilberto Braga, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e da Fundação Dom Cabral, o repasse de verbas abaixo da inflação pode representar um risco para a qualidade de ensino.

“Não sei até que ponto a Escola consegue desempenhar sua função com um orçamento menor. Em tese, o índice de inflação pega uma média que seria o aumento geral de preços na sociedade. Um repasse de verba abaixo da inflação pode significar um risco de uma insuficiência de recursos e, portanto, você cai o padrão de ensino”, alerta. “Entretanto, isso não é uma máxima. Você pode ter uma maior eficiência com recursos menores”, observa.

Para levantar a remuneração total dos professores, os valores foram extraídos do Portal da Transparência, do Governo Federal. Para o cálculo, foram descontados 5% dos atuais vencimentos para se chegar aos valores recebidos em 2013, e mais a mesma porcentagem abatida para os valores de 2012. Com a greve naquele ano, o movimento conseguiu 15% de reajuste salarial, divididos pelos três anos seguintes – também abaixo da inflação.

Repasses insuficientes

A diretora-adjunta de administração, conforme ela própria informou, envia anualmente para a Reitoria o chamado “orçamento participativo”, que reúne tudo o que a Escola vai precisar para o próximo ano letivo. No entanto, segundo Sheila Camlot, a quantidade enviada à Escola é bem inferior ao que é solicitado no documento.

“A gente faz uma demanda anual e envia as solicitações para a Reitoria. O orçamento, normalmente, é de mais de R$ 1,5 milhão, mas só recebemos um quinto disso.  A gente envia o que a gente quer, e a UFRJ repassa o que eles podem”, explica.

Embora reconheça que o orçamento da ECO não atende às necessidades da Escola, Sheila compreende o desafio da UFRJ em distribuir verbas para todas as suas unidades.

“O orçamento da UFRJ é gigantesco. Não tem como dar para Engenharia a mesma coisa que dá para Comunicação. Não faz sentido. Deve-se resguardar as especificidades de cada curso. Por exemplo, existem laboratórios de Medicina que demandam milhares de produtos químicos, coisas que a gente não tem aqui.”

Para o diretor de Planejamento, Orçamento e Gestão da UFRJ, José Augusto Barbosa de Souza Rocha, atender a todos os pedidos encaminhados pelas unidades tornaria impossível gerir a universidade.

“Não teríamos condições de arcar com todas as despesas relativas a, por exemplo, luz, água, telefonia, vigilância, limpeza, manutenção de máquinas e equipamentos, bolsas, transporte interno e intercampi, auxílio financeiro a estudante para realização de trabalho de campo, varrição das áreas externas, poda das arvores etc.”, enumera.

Dificuldade na obtenção de dados

A reportagem teve dificuldades em apurar os dados para o cálculo final do custo por aluno. A greve dos funcionários, iniciada em março deste ano, impossibilitou um levantamento orçamentário mais apurado. As despesas com água, luz e serviços terceirizados, além de verbas para projetos de extensão na ECO, não puderam ser calculados, apesar de a equipe ter tentado o contato com os responsáveis. Segundo a direção da ECO, o primeiro repasse de 2014 destinado a material de consumo, material permanente e de serviços ainda passou por alterações por conta de despesas “mais urgentes” surgidas nesta greve.

A ECO também não tem fechado o número de alunos ativos. Para se chegar ao resultado utilizado para este levantamento, a conta teve que ser realizada pelo Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (Siga), através de um funcionário da secretaria que somou o número de alunos inscritos de cada habilitação, subtraindo aqueles com perfis inativos ou transferidos para outras universidades, por exemplo.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Economistas divergem sobre bolha imobiliária no Brasil

Bolha apontada por Nobel de economia não é consenso entre economistas

 

Turma de Jornalismo Econômico 2014.1

 

Os crescentes preços de imóveis no Brasil têm levado especialistas e leigos a se questionarem se há ou não uma bolha imobiliária no setor. Desde 2008, imóveis subiram em média 203%, em São Paulo, e 252%, no Rio de Janeiro, de acordo com o índice FipeZap. Em comparação, no mesmo período, a inflação foi de 44% e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) teve uma queda de 13%.

Mauro Osório, economista e professor da UFRJ, nega a possibilidade de bolha. “No Brasil, não existe mercado de derivativos vinculado ao setor imobiliário, como existia em outros países que sofreram com a crise do final de 2008”. Já para Samy Dana, professor de economia na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, a bolha existe, sim, apesar de já estar se dissolvendo: “Os preços subiram muito mais do que os salários, mais do que a inflação e que o PIB. Os preços passaram do limite do razoável.”

Nobel apontou bolha no Brasil     

O questionamento sobre a existência da bolha surgiu depois que o economista Robert Shiller, ganhador do prêmio Nobel de economia de 2013, visitou o país, no ano passado, e alertou sobre a atual situação do mercado imobiliário brasileiro. Shiller ficou famoso por prever a bolha da internet, no ano 2000, e a grande bolha imobiliária dos Estados Unidos, em 2008.

O economista encontra algumas semelhanças entre o caso americano e o brasileiro. A principal delas sendo o descolamento do preço de venda do imóvel em relação ao custo de construção do mesmo imóvel. Como no caso americano o acompanhamento desses dois dados é histórico, havendo dados concretos para pesquisa desde o século XIX, o Nobel pôde elaborar um estudo no qual observou o crescimento desenfreado dos preços imobiliários, enquanto o de construção manteve sua ascensão estável.

O alerta de Shiller sobre o Brasil foi feito com ressalvas, tanto pela falta de dados históricos e concretos a serem estudados, quanto pelo seu assumido desconhecimento da situação econômica no país.  Porém tal argumento de autoridade não poderia passar despercebido e levantou, aos poucos, a discussão em solo brasileiro. Os motivos de uma possível bolha passaram a ser investigados e debatidos por alguns dos principais especialistas no tema.

Dana explica que os imóveis têm se mostrado uma aplicação pouco lucrativa, atualmente: “Existe um desequilíbrio econômico: o valor de aluguel frente ao do imóvel representa 0,3%, dependendo da cidade. Qualquer aplicação de baixo risco paga mais que isso, até a poupança paga mais”. O professor aponta que apesar de não terem acompanhado o valor de venda dos imóveis, os aluguéis se tornaram mais caros, inviabilizando uma série de pequenos negócios, como padarias e cafés.

Ele vê ainda com certa preocupação o boom de crédito que o setor imobiliário vem recebendo nos últimos anos. "Para piorar houve uma transferência de crédito do banco para as imobiliárias." Enquanto alguns economistas encaram o superaquecimento do mercado, desde 2004, como natural, após um longo período de baixa atividade, Dana enxerga nessa transferência de crédito de bancos a imobiliárias, aliada à baixa educação financeira da população, um possível problema. “O crédito agravou a relação de preços. A população passou a ter acesso a imóveis, mas não pensou no preço por baixa educação financeira. Quando o governo dá subsídio num setor sem competitividade, o subsídio tem que ser para a população, não para as empresas.”

Já para o professor da UFRJ, mesmo que o crédito imobiliário tenha dobrado, recentemente, o Brasil ainda se encontra dentro de uma margem segura, com uma relação de crédito/PIB de 8%, ao passo em que diversos países apresentam valores de 20%. “O crédito imobiliário ainda tem espaço para dobrar nos próximos anos”, afirma Mauro Osório.

Ele também aponta o fato de as compras de imóveis no país ainda estarem associadas ao desejo da população em obter sua casa própria, e não a uma aplicação que vise o lucro. Com isso, a tendência é que a inadimplência aqui permaneça em níveis baixos.

Este é também o principal argumento do Banco Central, ao defender que o aumento dos preços de imóveis no Brasil é normal. Durante a divulgação do Relatório de Estabilidade Financeira da instituição, Anthero Meirelles, diretor de Fiscalização do BC, descartou a possibilidade de uma crise, no Brasil, semelhante à que ocorreu nos EUA.  Meirelles destacou que 90% das compras são para a moradia própria e que o crédito imobiliário no país ainda é pequeno, quando comparado a outras economias. “O aumento do preço dos imóveis tem sido compatível com o crescimento da renda, não há descolamento”, afirmou o diretor do BC, acrescentando: “Não há bolha imobiliária no Brasil. Não temos elementos que caracterizem bolha.”

Mesmo que concordem sobre a importância da expansão de crédito, o motivo da subida dos preços também não é unânime: Osório indica a importância do aumento da renda da população e a formalização de empregos, enquanto Dana diz que um dos principais motivos é a baixa educação financeira do brasileiro médio.

Outro professor da FGV São Paulo, William Eid, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 15 de maio último, defende que a bolha está sendo consumida pela inflação, uma vez que os preços começam a se estagnar, ao passo que a inflação continua estável, o que contribui para a diminuição da taxa de valorização dos imóveis.

Expansão de crédito via Fed

Luciano D´Agostini, pesquisador da UnB, em artigo publicado pela UFPR aponta que o principal fator para a criação e crescimento da bolha imobiliária no Brasil é a expansão do crédito, não só no país como no resto do mundo. Segundo D´Agostini, a fim de estimular a economia americana, após a crise de 2008, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) facilitou o crédito no país, despejando centenas de bilhões de dólares no mercado.

Segundo o economista, para impedir que houvesse uma enxurrada de produtos e investimentos americanos no mercado brasileiro, distorcendo os preços, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Ao mesmo tempo, buscou desvalorizar o real em relação ao dólar americano, barateando o crédito brasileiro com a diminuição da taxa Selic e, ainda segundo D´Agostini, expandindo a base monetária do real. Como resultado, mais recursos foram indevidamente alocados para o setor da construção civil, gerando a atual bolha. Para que a bolha se disperse seria necessária uma constante diminuição na expansão do crédito, o que diminuiria a bolha gradativamente, dispensando a necessidade de uma crise no setor.

Em uma pesquisa publicada pelo IPEA, em agosto de 2012, intitulada “Existe bolha no mercado imobiliário brasileiro?”, os pesquisadores Mário Jorge Mendonça e Adolfo Sachsida reiteraram a opinião de que há, sim, uma bolha. Eles apontaram para o desproporcional aumento do emprego no setor da construção civil e a expansão artificial de crédito, sem poupança como lastro.

Os dois economistas do IPEA assinalaram também que o aumento da taxa de juros poderia estourar a bolha, assim como ocorrido nos EUA, em 2008. Mas os danos causados à economia brasileira não se comparariam àqueles da crise americana, pois o acesso ao crédito no Brasil é mais restrito do que nos EUA. Segundo o estudo, a bolha teria sido causada por irresponsabilidade fiscal e monetária do governo brasileiro.

A falta de consenso é a principal característica do debate sobre a bolha no Brasil. Mesmo os especialistas adotam posturas cautelosas e, acreditando ou não na possibilidade de crise, defendem suas posições com ressalvas. Uma coisa é certa: ninguém poderá se dizer desprevenido se de fato ela vier a acontecer. Na medida do possível, precisamos estar preparados. 

Expectativa de recursos para manutenção da ECO em 2014 fica abaixo da inflação


Escola de Comunicação e outras unidades apresentam verbas anuais reduzidas aos custos básicos e algumas questões sobre destinação do dinheiro são uma incógnita

 

Turma de  Jornalismo Econômico 2013.2

 

Mesmo contando com a maior verba das Universidades Federais (gráfico 1), a antiga Universidade do Brasil, a Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, apresenta uma distribuição de verbas bastante desigual entre cursos e unidades de ensino. A Escola de Comunicação conta com um orçamento anual de ¼ da quantia solicitada pela diretoria à Reitoria da UFRJ.  Sheila Camlot é diretora administrativa da Escola e revelou que em 2013 foi requisitado pouco mais de um milhão de reais, dos quais somente cerca de 260 mil reais foram aprovados diretamente. “Com o baixo orçamento recebido pela ECO para suas próprias necessidades, a definição de prioridades e projetos de melhoria nos cursos e instalações é quase extinta, sendo feito só o essencial”, explicou a diretora. Tais gastos básicos se resumem em produtos de primeira necessidade, como materiais de escritório e informática. 

Algumas obras de manutenção foram possíveis em 2013 devido ao apoio da Reitoria, como a revitalização de alas do Palácio Universitário, de custo aproximado a 100 mil reais. Porém ainda é possível perceber que muita coisa precisa ser feita como obras de revitalização no Laboratório de TV e vídeo da Central de Produção Multimídia, a COM, e na sala do antigo acervo da Biblioteca da Escola. Além disso, os contêiners que seriam de ajuda provisória acabaram se tornando uma solução não satisfatória para todos os cursos. O curso de Jornalismo Econômico, por exemplo, precisou ser remanejado para outras salas do Palácio e da COM devido à necessidade do uso da internet nas aulas.

Desde 2012, o orçamento da ECO deixou de incluir a verba destinada ao “Fortalecimento de espaços e pontos de cultura”, que é fornecida diretamente pelo Ministério da Cultura com o objetivo de financiar a compra de equipamentos, sem passar pela Reitoria da Universidade, e que teve, em 2013, um valor de cerca de 400 mil reais. O mesmo aconteceu com o valor destinado a “Projetos diversos de extensão”, neste ano na quantia de 145 mil reais. Dos seis projetos de extensão vinculados a este recurso, três beneficiaram diretamente o curso de Direção Teatral, que evoluiu de forma significativa nos últimos anos. Nadine Fuchshuber, aluna do oitavo período do curso, concorda que Direção Teatral tem melhorado a cada ano que passa com as verbas destinadas aos projetos. “Este ano conseguimos até a contratação de técnicos e refletores. Um aluno das antigas vai dizer que nunca teve nada disso” corrobora.

O curso de Jornalismo não aparece diretamente dentre os beneficiados. Contudo, Cristiane Costa, coordenadora do curso explicou que algumas verbas de projetos de extensão são pedidas pelos professores responsáveis e que chegam separadas da verba destinada à ECO. Por exemplo, existe verba para a produção de um Jornal Laboratório por semestre, que não aparece na lista da diretoria administrativa (Box 1).
Gráfico 1

Boxe 1

O repasse da quantia exata de R$ 263.099,00 informada por Sheila Camlot como o orçamento aprovado para a ECO em 2013, uma tabela fornecida por José Augusto, Diretor de Planejamento, Orçamento e Gestão, apresenta um valor de R$ 387.045,00. Esse orçamento foi dividido em Material de Consumo (R$ 233.318,00), Serviços de Terceiros (R$  132.889,00) e Material Permanente (R$ 20.838,00).

Para 2014 foi solicitado o valor de 1,59 milhão de reais, sendo que as prioridades serão definidas apenas a partir de março de 2014, quando inicia o mandato da nova direção eleita no início de dezembro, professor Amaury Fernandes e a professora Cristina Rego Monteiro, vencedores da eleição para nova direção para o período de 2014-2018. Apesar da quantia pedida, a expectativa é que o valor aprovado mantenha o aumento anual histórico de 5%, e não passe de 280 mil. Vale destacar que o percentual de aumento se encontra abaixo do índice nacional de inflação nos últimos anos. E abaixo da expectativa de 5,8% para fechar o ano corrente, dentro da meta do Banco Central.